Por que preciso me associar?

Na antiga Grécia, por volta do século VI a. C., houve um grande fabulista denominado Esopo. Estaremos transcrevendo um de seus mais conhecidos contos, denominado “Os Filhos do Camponês”, o qual assim nos ensina:

"A discórdia reinava entre os filhos de um camponês. Em vão, ele os exortava a mudar de comportamento; suas palavras não produziam nenhum efeito. Foi por isso que decidiu dar-lhes uma lição na hora: - Tragam-me - disse ele - um feixe de gravetos. Os meninos foram buscar. O camponês pegou os gravetos e os uniu num feixe compacto e pediu que eles o partissem. Apesar de toda a força que botaram, não conseguiram. O pai então desfez o feixe e deu a cada um deles um graveto. As crianças os quebraram com facilidade. - Vejam, meus filhos, o mesmo acontece com vocês: se forem unidos, não temerão inimigos, mas se continuarem na discórdia, cairão na mão deles."

Esse singelo conto descreve com grande precisão a mais sensata atitude que os praticantes da aquariofilia do Brasil devem tomar, qual seja: Unirmo-nos através de uma associação para protegermos nossos direitos; uma vez que estamos sendo colocados na berlinda por alguns pensadores anacrônicos, os quais ainda imaginam estar na moda o “ambientalismo” barato, que propala exageros e deixam de lado as visões verdadeiramente ambientais que os tempos hodiernos requerem.

Muitos deles são exageradamente influenciados pela obra “Jaulas Vazias” do escritor norte-americano Tom Regan, onde podemos verificar grandes ensinamentos sobre evitarmos práticas cruéis para com os animais; contudo, o prazer pela companhia dos animais é destaque nesse próprio autor, pois basta uma pesquisa simples em sítios de busca na internet para vermos sua foto junto a dois cachorros e um gato.

O grande problema que esses extremistas têm causado com seus estapafúrdios pensamentos, é o fato de estarem influenciando junto aos órgãos governamentais contra tudo aquilo que eles imaginam ser prejudicial à natureza. E assim, chegaram ao ponto de alçar verborragias contra a aquariofilia.

Como esse pessoal vive imiscuído nos corredores dos órgãos do governo, (quando dele não fazem parte), está se tornando cada vez mais comum a perseguição aos praticantes da aquariofilia. Acusam-nos de ser “causadores de sofrimento aos peixinhos”, “crueldade com os seres aquáticos”, “escravizadores de pequenos animais”, dentre outros.

Suas ações são muito levianas e não levam em consideração que proibir a aquariofilia, (ou o que é pior, dissimular a proibição através de empecilhos que inviabilizam sua prática), acaba levando à clandestinidade e utilização inadequada dos recursos naturais que a aquariofilia necessita para se manter. Vejamos o comentário de Paulo de Bessa Antunes em sua obra “Direito Ambiental”:

"Equivoca-se o socioambientalismo ao pretender que, necessariamente, as populações tradicionais protejam o meio ambiente, pois a prática tem demonstrado que populações tradicionais também podem ser promotoras de degradação ambiental quando as pressões econômicas se tornam irresistíveis.” 1

Desta forma, a proibição grosseira, (ou dissimulada), só se prestará a compelir aos aquaristas a buscarem os recursos para a manutenção e montagem de seus aquários nas mãos daqueles que exploram, clandestinamente, a natureza; em contrapartida, os que procuram manter regularizadas as formas de trabalhar para atender ao público ligado à aquariofilia, (recolhendo seus impostos, gerando emprego e renda), certamente estarão fadados à falência ou a sucumbirem à clandestinidade. É o famoso “tiro no pé”.

Normas que estão sendo lançadas ou aplicadas pelo Poder Público denotam o grande despreparo por parte daqueles que as confeccionam ou aplicam; pois, na maioria das vezes, querem impor à aquariofilia normas reguladoras de aqüicultura e pesca para consumo humano. São situações estapafúrdias, pois aqueles que praticam a aquariofilia ou comercializam produtos desse ramo não o fazem com o intuito de consumo alimentar. Parece não perceberem que o erro está em querer tratar de forma igual coisas que são diferentes.

A causa disso é a falta de compreensão e humildade para consultar aos que efetivamente entendem sobre a aquariofilia. O indivíduo pode ser um ótimo biólogo, um excelente veterinário, um exímio geógrafo, um ecólogo de primeira grandeza; mas se não for um praticante da aquariofilia ou estudar amiúde suas peculiaridades, será um perfeito apedeuta na matéria; no máximo será o conhecedor de alguns conceitos basilares, pois a aquariofilia é multidisciplinar e precisa de diversos campos da ciência para se estabelecer de forma correta.

Criticar os aquaristas é muito cômodo e fácil; mas aqueles que estão verdadeiramente preocupados com as questões ambientais que podem advir pela prática e manejo incorreto desse exercício, deverão lutar para ensinar aos que quiserem praticar a aquariofilia a correta forma de exercê-la; e mais, lutar para que as normas pertinentes não sejam viciadas por proibições estúpidas e descabidas, mas que tenham o cunho educacional, preventivo e propiciador da sustentabilidade.

Assim, o maior motivo para se tornar um associado da ABRAQUA não são os brindes que volta e meia acabam sendo distribuídos num ou noutro evento, não é a busca de vantagens pessoais a todo o custo (“lei de Gérson”); pois esse é um pensamento pequeno e egoístico.

A Associação Brasileira de Aquariofilia já está constituída e em pleno funcionamento nos termos legais. Agora necessita engrossar suas fileiras para que tenhamos um bom número de associados e possamos levar nossas vozes aos órgãos governamentais; e assim, lutarmos para retirar o infame estigma que paira sobre os aquaristas, semeado por aqueles que, por motivos questionáveis, querem destruir e acabar com a arte salutar da aquariofilia.

Se não tomarmos providências agora, ficaremos vistos como criminosos, e veremos tudo aquilo que montamos e cuidamos com amor e carinho ser destruído e considerado espúrio.

Para maior reflexão, fica aqui um texto de Maiakovski, poeta russo "suicidado" após a revolução de Lenin, escrito ainda no início do século XX:

"Na primeira noite, eles se aproximam
e colhem uma flor de nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem,
pisam as flores, matam nosso cão.
E não dizemos nada.
Até que um dia, o mais frágil deles,
entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a lua,
e, conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E porque não dissemos nada,
já não podemos dizer nada.
"