Dulcícola

KILLIFISH - INTRODUÇÃO E ENSINAMENTOS PRÁTICOS

Artigo feito integralmente por DALTON NIELSEN, uma das maiores autoridades mundiais sobre Killifish e autor do livro "Simpsonichthys e Nematolebias", editora Cabral, 2008. (Ricardo Bitencourt - Presidente da ABRAQUA)

INTRODUÇÃO – sex HISTÓRICA

Os killies são peixes, geralmente, pequenos e de colorido exuberante que fascinam os aquaristas de todo mundo. Nenhum outro grupo de peixe possui tantas variações de cor, formas, tamanho, comportamento, hábitos de reprodução, ecologia e possibilidade de interação entre os aquaristas, tornando os seus criadores em apaixonados pelo hobby.

Por ter como em seu habitar natural, em geral, ambientes restritos e de baixa concentração de oxigênio, este peixes adaptam-se facilmente a pequenos aquários e por isso são ideais para quem vive em apartamento ou não possui disponibilidade de espaço.

A primeira descrição científica de um Killifish (embora este termo não tenha sido usado na época) foi feita em 1766 por Carl von Linnaeus na 12a edição de seu Systema Naturae, onde Cobites heteroclitus (atualmente conhecido como Fundulus heteroclitus) é citado como tendo sua localidade típica em Charleston, Carolina do Sul.

O primeiro Killi encontrado no Brasil foi o Rivulus brasiliensis em 1804 e classificado em 1821 por Valencinnes, um ictiólogo Francês.

O termo Killifish foi utilizado pela primeira vez no ano de 1788 por David Schoepff e referia-se a pequenos peixes encontrados em pântanos salobres nos arredores da ilha de Manhattan, onde hoje se ergue a cidade de Nova Iorque.

Nos fins do século XVIII a palavra começou a aparecer na literatura científica com várias grafias: Killyfish, Killefish, Kill fish, Killeyfish, Killiefish antes da atual grafia Kiillifish.

Em 1803 o naturalista francês Estevão de Lacepede descreveu os gêneros Fundulus e Cyprinodon, difundindo assim a utilização do termo Killifish, aplicado por ele às espécies do gênero Fundulus.

Em 1815, Jordan generalizou a utilização do termo para todos os peixes da família Cyprinodontidae em um trabalho sobre Cyprinodon variegatus.

Durante o século XIX e início do século XX inúmeras espécies de Cyprinodontiformes foram descobertas e descritas aumentando o uso desta nomenclatura. No entanto a palavra Killifish se popularizou no hobby através do ictiólogo George S. Myers. Em meados dos anos 40, Myers elaborava trabalhos de sistemática e revisava as edições da revista Exotic Aquarium Fishes, a mais conceituada revista de aquarismo da época. Foi devido à popularidade dessa publicação que Kiliifish virou sinônimo de Cyprinodontiforme ovíparo no mundo inteiro.

Os meios de divulgação amadores olhavam os Killies com preconceito, pois acreditavam que o nome Killies possuía sua origem no inglês (Kill= matar), mas pesquisa encomendada pela AKA (American Kiilifish Association) revelou que este nome tem origem na língua holandesa, onde Kill ou Kille significa canal, riacho ou arroio, como era o habitat dos primeiros Killies encontrados.

Os killies começaram aparecer no hobby no início do século, mas foi na década de 60 que tiveram uma grande projeção entre os aquaristas. Isto pode ser explicado pela criação das associações de killis que surgiram na época e também com o lançamento do livro Rivulins of old Worl do dinamarquês J.J.Scheel.

Em alguns lugares no Brasil os Killies são conhecidos, popularmente, como “peixes das nuvens”, pois como habitam locais perenes, isto é, poças de água temporárias, as pessoas não entendem como pode existir peixe em um local onde meses atrás estava seco, acreditando que os peixes caem do céu nas gotas das chuvas.

Diversas espécies de Killies podem ser mantidas em aquários comunitários, sobrevivem por até 2 anos e reproduzindo durante toda sua vida .

Distribuição e Evolução Geográfica

Atualmente, as mais de 1000 espécies conhecidas de Killies se encontram distribuídas nas zonas Equatoriais e Temperadas do globo, com exceção da região Australásica.

Para que possamos compreender a distribuição atual dos Killies, devemos remontar ao passado geológico da terra. Há cerca de 250 milhões de anos atrás (durante o período Permiano) toda superfície continental do planeta estava aglomerada em um único super-continente chamado de Pangea. Devido à intensa pressão gerada pelo deslocamento de magma, nas camadas inferiores do globo, a crosta terrestre se fragmentou em vários pedaços denominados de Placas Tectônicas. Estas placas, então, começaram a se afastar, carregando consigo porções do super-continente original.

Durante o período jurássico (há aprox. 200 milhões de anos) os blocos que hoje compõem o continente Australiano e o Antártico já se encontravam bastante distanciados de sua origem e o restante dos continentes começavam a assumir suas formas atuais. Nesta época, formou-se um mar raso entre as várias porções dos “novos” continentes denominados Mar de Thetys. Foi nesta época e neste local que surgiram os primeiros Killifish.

Com a continuidade da deriva continental, os killies ancestrais não se aventuraram a atravessar as regiões mais profundas dos novos oceanos que estavam se formando, foram afastando-se entre si, penetrando nos continentes, ocupando novos habitats com novas condições ambientais, adquirindo novas características e dando origem à grande variedade de espécies que existe atualmente nos continentes que um dia delimitaram o grande Mar de Thetys.

Atualmente, considera-se uma espécie, um grupo de populações naturais que mantêm um fluxo genético e se encontram isoladas reprodutivamente de outros grupos relacionados. Este conceito moderno difere do conceito mais difundido, que considera uma espécie um grupo de indivíduos que se reproduz gerando descendentes férteis, pelo fato de considerar os fatores geográficos e temporais (dois grupos isolados geograficamente, considerados duas espécies, podem no futuro passar a ter novamente uma troca genética o que os fundiria em uma única espécie) e os fatores naturais (são conhecidos vários casos de cruzamentos “artificiais” entre duas espécies bastante distintas com tigres e leões, que em alguns casos geram descendentes férteis, que segundo o conceito atualmente mais difundido deveriam ser consideradas apenas uma espécie).

Para que possamos identificar um grupo de indivíduos como pertencentes a uma espécie, precisamos analisar as conseqüências diretas do processo evolutivo: Um grupo de indivíduos que apresenta um fluxo genético apresenta um conjunto de características em comum, com poucas variações, o que não é observado entre grupos isolados geneticamente. Com isso, para se classificar uma espécie, precisamos reunir a maior quantidade possível de informações referentes a um grupo de indivíduos e termos certeza de que estas informações são substancialmente diferentes de todas as outras espécies já classificadas.

O processo de descrição de uma nova espécie se processa da seguinte forma:

1-Captura dos exemplares e preservação dos mesmos (peixes normalmente são preservados integralmente, imersos em soluções fixadoras como álcool, formol, glicerina, etc)

2-Depósito dos exemplares preservados em uma instituição científica reconhecida para este fim (para futuras análises e indagações)

3-Obtenção de dados das características intrínsecas dos exemplares (dados anatômicos, físico-químicos e ou genéticos)

4-Documentação dos dados obtidos

5-Análise comparativa dos dados obtidos com os de espécies próximas, já conhecidas.

6-Publicação de todo processo (local de origem e de depósito dos exemplares, materiais e métodos utilizados, resultados observados e conclusões) em um veículo difundido no meio científico, para apresentação da espécie.

ECOLOGIA E HISTÓRIA NATURAL

Uma das características mais marcantes neste grupo de peixes é a singularidade das formas de reprodução que estes desenvolveram como forma de adaptação aos diversos habitats que ocupam.

De acordo com o ambiente em que vivem os Killifishes são divididos em anuais,semi-anuais e não anuais.

As espécies ANUAIS habitam coleções de água que secam complemente no decorrer da estação seca, com a conseqüente morte de todas as formas aquáticas de vida, apresentam o fenômeno conhecido como anualismo. Seus ovos, enterrados no substrato, possuem a capacidade de enfrentar o período de estiagem em um estado de latência (denominado DIAPAUSA) até que o retorno da estação chuvosa permita a segura eclosão das larvas. Desta forma, na natureza, dificilmente uma geração terá contato com à geração seguinte.

Em tais peixes, o comportamento reprodutivo é muito interessante, dividindo-se basicamente em espécies aradoras e mergulhadoras. O casal nas espécies de comportamento arador desova nas camadas superiores do substrato geralmente em profundidades entre 0,5 e 1,0 cm. Após percorrerem pequenas distâncias arrastando-se sobre o substrato à procura de local adequado. Temos como principais gêneros de Killies anuais aradores Nothobranchius e Pleosolebias sendo que algumas espécies de Pleosolebias nem chegam a tocar no substrato, simplesmente liberando seus ovos sobre este.

Já nas espécies de comportamento mergulhador, tanto o macho como a fêmea mergulham juntos na vertical, após algumas sondagens prévias com o focinho, depositando seus ovos em profundidades superiores a 3 cm, sendo que algumas espécies de grande porte (Trigonectes ssp. por ex.) conseguem depositar seus ovos a 15cm de profundidade. Cynolebias, Pterolebias e Simpsonichthys são exemplos anuais mergulhadores.

Experiências realizadas em laboratório com larvas de espécies mergulhadoras do gênero Cynolebias, eclodidas de ovos por vezes enterrados a 15 cm de profundidade comprovam que estas se locomovem no interior do substrato, de maneira retrógrada, com a cauda apontada para frente, abrindo caminho na lama até atingirem a água livre.

Os killifishes SEMI-ANUAIS estão adaptados aos ambientes de transição, como por exemplo, riachos ou lagoas que podem secar nos períodos de grande estiagem. Seus ovos possuem a capacidade de entrar em diapausa sendo sua deposição efetuada no solo ou nas raízes das plantas aquáticas, sendo que estas ao secar, se depositam sobre eles, proporcionando a necessária cobertura e proteção aos ovos em desenvolvimento. Algumas espécies do gênero Fundulopanchax apresentam características semi-anuais.

Finalmente as espécies não anuais, que vivem em coleções de água permanente, e se constituem na grande maioria das espécies de Killies existentes. Seus ovos são depositados nas raízes das plantas, muito próximos da superfície da água, sendo que estes permanecem submersos durante todo o desenvolvimento embrionário, que por isso ocorre mais rapidamente que nas espécies semi-anuais e anuais. As espécies dos gêneros Rivulus e Aphyosemion são as mais características deste grupo.

Kriptolebias ocellatus, apresenta uma característica bastante peculiar, consiste na única espécie de vertebrado que além de ser hermafrodita, tem capacidade de auto-fecundação.

O comportamento básico de corte é semelhante para quase a generalidade das espécies de Killifishes. Após a localização de uma fêmea, o macho se dirige para esta abrindo ao máximo suas nadadeiras ímpares. Logo a seguir executa movimentos ondulatórios frenéticos e muito rápidos, às vezes com arremetidas curtas na direção as fêmeas, podendo-se seguir uma perseguição, se a mesma não estiver disposta ao acasalamento. No caso de ter sido aceito, o macho emparelha-se lateralmente à fêmea, dobrando a nadadeira anal sob o corpo da companheira. Por vezes a nadadeira dorsal também se dobra, sendo este o comportamento usual nas espécies que compõem o gênero Nothobranchius.

O corpo de ambos os componentes do casal torce-se ao longo do eixo longitudinal, adotando a clássica postura em S. Com uma pequena tremulação, um óvulo é expelido e fecundado. Este comportamento pode ser repetido inúmeras vezes até que um bom número de ovos seja depositado e o casal exausto se separe.

Os ovos dos Killies possuem no revestimento externo (corium) expansões ou filamentos aderentes que rapidamente agregam partículas do substrato, tornado-se visualmente indistinguíveis deste. Tal substrato costuma ser nos ambientes habitados por killies anuais e semi anuais, uma lama composta principalmente por resíduos orgânicos animais e vegetais, partículas de areia, argila e outros minerais, pólen, algas, etc...

O período de incubação é variável conforme a espécie considerada, demandando de alguns dias a vários meses, sendo que fatores abióticos, como a temperatura e os níveis de dióxido de carbono e oxigênio no substrato também influem na duração deste período. As larvas nascem praticamente formadas, sem vestígio de saco vitelínico, nadando e se alimentando pouco após de nascidas.

A natureza e composição do substrato, composto por abundante matéria orgânica, permite uma verdadeira explosão de organismos, como infusórios rotíferos e micro crustáceos, poucas horas após a inundação do ambiente. Estes animáculos se constituem em excelente alimento para as larvas e alevinos dos peixes, os quais crescem rapidamente, nadando nesta verdadeira sopa de alimentos, maturando sexualmente em apenas 6 a 8 semanas após o nascimento.

Devido a seus hábitos reprodutivos peculiares, assim como os locais extremamente restritos que habitam (Cyprinodon macularis habita apenas uma única lagoa dentro do deserto de Nevada, EUA) os killies são extremamente vulneráveis a alterações ambientais. Espécies restritas a uma pequena área de distribuição podem ser extintas com a construção de um condomínio ou um canal de drenagem.

MANUTENÇÃO DE KILLIFISHES EM AQUÁRIO

A manutenção de Killifishes em aquário pelo contrário do que se imagina não apresenta grandes dificuldades devemos apenas seguir alguns cuidados básicos exigidos por todas as espécies, mas também deveremos observar a origem dos killifishes escolhidos. Se o criador desejar trabalhar com espécies oriundas de regiões de clima frio e este residirem no Rio de Janeiro com certeza não terá êxito, ou o criador que morar em regiões frias terá dificuldades em manter espécies de regiões de clima quente (Nothobrachius por ex.) sem um bom sistema de aquecimento.

As tampas dos aquários deverão ter uma atenção especial, pois não é raro acontecer principalmente com iniciantes, que um ou outro peixe venha a saltar do aquário por este não estar bem tampado, sendo que por menor que seja o espaço os killifishes sempre conseguirão passar. Deveremos ter cuidado para evitarmos surpresas.

ÁGUA

A água ideal a ser utilizada na manutenção e reprodução de Killifishes deve ter um pH próximo do neutro (o que facilita correções para as diferentes espécies) tendo-se o cuidado de retirar o cloro.

Algumas espécies necessitam de água de chuva, que deverá ser recolhida após 20 minutos o inicio da mesma para evitarmos resíduos de poluição na água.

Algumas espécies de Aphyosemion, Diapteron e Rivulus somente desovam usando-se água de chuva ou água condicionada em turfa de coloração escura, já as Kriptolebias de regiões costeiras necessitam de uma quantidade maior de sal na água.

Por este motivo que devemos obter a maior quantidade de informações do habitat das espécies que desejamos manter, pois somente assim poderemos nossos casais reproduzindo pelo maior tempo possível.

TEMPERATURA DA ÁGUA

A temperatura que considerada ideal para manutenção de killifishes em aquário se situa entre 20 e 26 graus Celsius, sendo que em espécies oriundas da região sul do continente a temperatura máxima não poderá ultrapassar os 22 graus.

Apesar de existirem alguns biótopos em que as temperaturas mínimas chegam a 07 graus e outros em que a temperatura máxima alcança 42 graus, em aquário não é conveniente seguir-mos estes parâmetros, pois iremos comprometer seriamente a saúde dos peixes.

ALIMENTAÇÃO

A alimentação é um item que requer atenção especial, pois dela depende a qualidade das matrizes e de seus ovos.

Para os filhotes recém nascidos de pequeno porte deveremos utilizar, como primeira alimentação, o infusório depois passaremos para artêmias recém eclodidas e micro vermes. Nas espécies de maior porte poderemos iniciar a alimentação já com os náuplios de artêmia e seguir a mesma seqüência.

O problema do alimento vivo que requer muito trabalha para mantê-lo e nem sempre encontramos no mercado, por isso o ideal é alimentar os peixes com ração.

Os Killies aceitam rações industrializadas, devemos apenas ter o cuidado de não colocarmos esta alimentação em excesso, pois poderá rapidamente degradar a biologia do aquário.

DOENÇAS

Os killifishes dificilmente são acometidos por doenças desde que respeitadas as suas condições ideais de cada espécie.

Caso os peixes sejam atacados por fungos ou bactérias poderemos utilizar os remédios encontrados no comercio seguindo as indicações do fabricante.

No caso de doenças como hidropsia, exoftalmia e tuberculose o melhor será eliminar os peixes afetados antes da doença se alastrar.

REGRA

Quando a reprodução dos Killies for nosso objetivo, não deveremos nunca misturar espécies ou populações diferentes em um mesmo aquário, pois poderemos gerar indivíduos estéreis ou inviáveis, prejudicando o futuro da espécie, uma vez que algumas das espécies mantidas em cativeiro não existem mais na natureza. Devemos SEMPRE anotar nos aquários o nome da espécie, a população a qual pertence e se possível, origem dos peixes. Nunca esqueça desta REGRA!!!

REPRODUÇÃO DE KILLIFISHES

Antes de iniciarmos a reprodução de Killifishes é de suma importância a definição da característica reprodutiva intrínseca da espécie que pretendemos reproduzir, pois como já foi citado anteriormente, estas podem apresentar três formas reprodutivas distintas, que exigem técnicas de criação bastante diferenciadas.

REPRODUÇÃO DE KILLIFISHES ANUAIS

Em primeiro lugar devemos escolher o aquário ideal para a espécie que pretendemos reproduzir podemos dividir os killifishes em quatro grupos o das espécies pequenas, médias, grandes e as “gigantes”.

No caso das espécies pequenas se enquadram aqui as Leptolebias, Plesiolebias, Stenolebias, Cynopoecilus e Nothobrachius Janpapi o aquário mais adequado possui as dimensões de 14x15x20cm (LxAxP) aproximadamente 5,0 litros. Este aquário é dividido em duas partes por uma divisória de vidro com 03 cm de altura colocada na base do mesmo, sendo que uma das partes com 13 cm será deixada livre para colocação de plantas na outra com 07 cm será destinada ao substrato que terá 1,0 a 1,5cm de altura. Este “ambiente” comporta um trio (1 macho e 2 fêmeas) e deverá ser muito bem plantado com musgo de java (Vesicularia dubyana) e algumas mudas de Microsorium pteropus que além de ajudarem na manutenção do aquário protegem as fêmeas das investidas dos machos. O substrato deverá ficar neste aquário por um período de duas a três semanas, dando-se preferência a alimentação viva aos reprodutores. Após este período será colocado novo substrato e o retirado deverá ser guardado como descrito logo a seguir.

As espécies de médio porte são Simpsonichthys boitonei, S. zonatus, S.chacoensis, S.constanciae, S.flammeus, S.notatus, S.bokermanni, S.nigripinnis, S.bellotti, S.myersi, S.costai, Milllerichthys, Maratecoara, Terranatos, Nothobrachius (com algumas exceções), Rachovias, Campellolebias, etc... Para estes peixes utiliza-se um aquário de 15x20x30cm 9,0 litros, com uma divisão de 5,0cm de altura ,em uma das partes com 20cm será reservada para as plantas e a outra parte com 10cm é reservada para o substrato com 2,0 a 2,5cm de altura. Este aquário deverá também ser muito bem plantado para limitar a agressividade dos machos e melhorar as condições do aquário. O período de permanência do substrato será de duas a três semanas e então este será trocado.

As espécies que consideradas de grande porte são Nothobrancius robustus, N.melanospilus, Austrofundulus, Pterolebias, S. flavicaudatus, S.ghisolfii, Neofundulus ,etc...., apesar de nem todas estas espécies terem um porte muito verifica-se que um aquário de maior dimensões diminui a agressividade do macho com as fêmeas. Costuma-se usar um aquário de 20x20x35cm com 14 litros, coloca-se o substrato com 3,0cm. As plantas devem estar em abundância. O período de permanência do substrato deverá ser de até 4 semanas.

Como gigantes consideramos as Cynolebias do grupo A. elongatus e C. porosus , Moema, Trigonectes, Pterolebias hoignei,etc... Costuma-se usar um aquário de 23x25x40cm 23 litros, divisória de 10 cm de altura, com um espaço de 25 cm para as plantas e uma camada de 5,0 à 7,0cm de substrato nos outros . Deverão ser tomados os mesmos cuidados quanto ao período de desova. As plantas deverão ser colocadas em abundância, pois estas espécies perseguem insistentemente as fêmeas.

Depois de escolhermos o aquário ideal iremos preparar o substrato para a desova. Existem quatro tipos de material que podemos usar para este fim são eles:
- Sphagnum;
- Turfa;
- Xaxim;
- Fibra de côco.

Deve-se tomar cuidado com o fato de alguns desses materiais liberam certas quantidades de ácidos tânicos, que podem provocar uma acidificação demasiada da água do aquário. Para evitar este problema, o substrato do aquário deve ser trocado a cada 4 semanas ou quando a água apresentar uma coloração demasiadamente escura (cor de Coca-Cola)

Preferencialmente misturamos pó de xaxim ou fibra de côco, sphagnum e turfa na proporção de 1.2.1, pois este é um substrato ideal tanto para a desova dos peixes como para se chegar ao ponto ideal de secagem. Observando-se este substrato no aquário veremos que o material mais pesado (duro) irá para o fundo protegendo os ovos, e o material mais leve (macio) ficará na parte superior sem ferir os reprodutores no ato de desova e também protegendo os ovos do apetite dos mesmos.

Depois de terminado o período de desova, se observando os prazos acima citados, devemos retirar a turfa para um período de incubação a seco. Para isto devemos retirar os reprodutores do aquário, as plantas e parte da água (que será usada na montagem de um novo). Com isto, podemos coar a turfa em uma rede de malha fina (tipo de malha para náuplio de artêmia) retirando o excesso de água espremendo-a. Então enrolaremos a turfa em uma folha de jornal e será guardada por algum tempo para que perca o excesso de água. O ponto ideal de secagem será atingido quando a turfa atingir a consistência de fumo de cachimbo, que será alcançada entre 24 e 72 horas dependendo da umidade do local. Nunca devemos colocar o material do substrato para secar diretamente ao sol, pois isto pode prejudicar os ovos. Devemos então fragmentar a turfa com as mãos e guarda-las em sacos plásticos fechando-os hermeticamente e etiquetando-os com o nome da espécie, população, data da secagem e possível data da eclosão. Estes sacos devem permanecer em ambiente escuro e com temperatura em torno de 20 C. Deve-se tomar muito cuidado nessa fase, pois se pode perder toda a desova, caso a turfa passe do ponto de secagem (umidade ideal já citada acima).CUIDADO!

O tempo de incubação dependerá da espécie trabalhada e estação do ano, o período pode variar de 45 a 180 dias, abaixo alguns exemplos:

VERÃO INVERNO
Leptolebias 45 dias 60 dias
Simpsonichthys 60 dias 120 dias
Cynolebias 60 dias 70 dias
Maratecoara 90 dias 120 dias
Pterolebias 120 dias 180 dias
Moema 120 dias 150 dias
Trigonectes 120 dias 150 dias
Pituna 120 dias 180 dias
Terranatos 150 dias 180 dias
Campellolebias 60 dias 80 dias
Nothobrancius 60 dias 70 dias
Fundulopanchax 30 dias 45 dias
Rachovia 30 dias 120 dias
www.gyno-extrem.com/

Observações:
Estes parâmetros podem variar, pois a umidade do ambiente também pode variar o tempo de incubação.

Após o período de incubação, se os ovos estiverem realmente prontos para eclodir (que pode ser constatado observado se os embriões já apresentam os olhos bem definidos), chegou o momento de colocar-mos o substrato em água para eclosão. Para isso, devemos respeitar algumas regras:

- A água usada, quando possível, deverá ser a de chuva, colhida após 20 minutos do inicio da mesma para se evitar resíduos de poluição. Quando não for possível usar água da chuva poderemos usar a água de torneira, devidamente tratada retirando-se o cloro e condicionando-a, deixando-a descansar por pelo menos uma semana e acertando o Ph de acordo com a espécie escolhida.

- O aquário deverá ser o mais amplo possível para que não haja necessidade de se elevar a coluna de água acima de 2 cm, pois isso pode dificultar que os alevinos desenvolvam sua bexiga natatória e fiquem arrastadores.

- A água deverá estar entre 20 e 24 graus, ou próximo a estes valores para evitarmos que os alevinos adquiram doenças ao nascer.

Para tanto, devemos em primeiro lugar escolher o aquário adequado para se realizar a eclosão Neste aquário coloca-se uma coluna de água (de acordo com todos os parâmetros já citados, apenas não acrescentaremos sal nesta água, pois no substrato existe sal acumulado) em torno de 10 cm. Coloca-se então um pouco de água dentro do saco plástico que contêm o substrato somente o suficiente para umedecer o mesmo e deixa-se descansar por volta de 03 min. Este substrato deve ser colocado no aquário e em torno de duas horas os primeiros alevinos eclodirão. Após 48 horas deverão ter nascidos todos os alevinos.

O substrato deve ser secado novamente repetindo o processo todo depois de 15 dias por mais duas vezes, pois poderá haver alguns ovos os quais o embrião não se desenvolveu, agindo desta forma teremos certeza do nascimento de quase todos os alevinos. Antes de utilizar-mos este substrato deveremos fervê-lo para não correr-mos o risco de misturar-mos as espécies.

Quanto à alimentação dos alevinos nas espécies de menor porte, Plesiolebias, Leptolebias e alguns Nothobranchius, deveremos utilizar na primeira semana infusórios e conforme os alevinos forem crescendo deveremos acrescentar em sua dieta nauplio de artêmia e microvermes,e acrescentaremos por ultimo artêmia salina e ração. Nas outras espécies poderemos iniciar a alimentação com náuplio de artêmia e depois seguiremos a mesma seqüência descrita anteriormente.

No aquário que colocamos os alevinos deveremos diariamente acrescentar 01cm de água até alcançarmos uma coluna de 15cm,após isto deveremos trocar semanalmente 50% da água, sempre com os mesmos parâmetros inclusive o sal ,dessa forma iremos contribuir para diminuição da poluição na água do recipiente e contribuirá para o crescimento dos alevinos, conforme os alevinos forem crescendo deveremos separa-los por sexo o que poderá ser feito em aproximadamente dois meses após a eclosão, pois os machos costumam crescer mais rápido e acabam contribuindo para que haja um retardamento no crescimento das fêmeas em fase a competição com os mesmos

Conforme os peixes forem se desenvolvendo deverão ser colocados em aquários maiores ou divididos em vários e ainda se o numero de alevinos nascidos for grande também deverão ser divididos, diminuindo assim as perdas por canibalismo, competição ou alguma enfermidade oportuna que venha a infectar os aquários.

REPRODUÇÃO DE KILLIFISHES NÃO ANUAIS

Este grupo de killifishes possui características morfológicas e comportamentais muito semelhantes e seus ovos não suportam períodos prolongados fora da água. Sendo assim não poderemos utilizar as mesmas técnicas de reprodução para essas espécies.

Em primeiro lugar deveremos aprender como confeccionar uma bruxinha, para fabricá-las necessitamos de alguns novelos de LÃ SINTÉTICA, de preferência as cores escuras, somente utilizarão lã 100% sintética, pois as com fibras naturais decompõem-se facilmente e poluem o aquário, podemos usar um livro de 15 a 20 cm como gabarito, neste daremos umas quarenta voltas com o fio de lã amarraremos um dos lados e cortaremos o outro, pegaremos um pedaço de isopor e cortaremos pequenos pedaços de 03 x 04 cm e iremos amarrar a lã no isopor que servirá como flutuador imitando raízes de plantas.

Um dos métodos utilizados para reproduzir os não anuais consiste em se montar um aquário com cascalho, plantas, bruxinhas e filtragem e colocaremos neste um casal ou trio da espécie a se reproduzir, a alimentação deverá ser farta e variada dando preferência a presas vivas. No prazo de 30 a 45 dias começarão a aparecer os primeiros alevinos estes deverão ser transferidos para outro aquário onde se desenvolverão. Algumas espécies como Pseudoepiplatys annulatus se bem alimentados dificilmente prestarão atenção nos alevinos e perdas por canibalismo serão pequenas, no caso de rivulus os da região central e norte (Riv. apiamici,xiphidius,etc)também se adaptam bem a este método.

Poderemos utilizar outro método que é mais eficiente em espécies cujo taxa de canibalismo é alta, deveremos usar um aquário sem substrato, com algumas plantas e usaremos duas ou mais bruxinhas com flutuadores. As fêmeas realizarão as desovas nas bruxinhas e pelo menos uma vez por semana devemos realizar a coleta dos ovos, para isto teremos que retirar a bruxinha do aquário e espreme-la, o córion dos ovos é bastante resistente e não haverá problema para os mesmos, iremos procurar os ovos nos fios de lã, pois estes são aderentes e poderão ser manipulados com os dedos úmidos, serão colocados em pequenos recipientes com água preparada anteriormente adicionada de fungicida esses ovos deverão ficar nestes recipientes até a eclosão.

A eclosão poderá demorar de 09 até 30 dias dependendo da espécie e das condições do ambiente (temperatura, luz, etc), de inicio a grande maioria dos alevinos já poderão receber como primeiro alimento nauplios de artêmia, depois deverá ir complementando sua dieta conforme forem crescendo, estes alevinos deverão ser colocados em aquário de crescimento, 14 a 21 litros, trocas periódicas de água são recomendadas.

REPRODUÇÃO DE KILLIFISHES SEMI-ANUAIS

Nos killifishes SEMI-ANUAIS podemos usar substrato ou bruxinhas. Para estas espécies poderemos usar aquários de 09 ou 14 litros dependo da espécie.

Nas espécies de Fundulopanchax anuais devemos usar o mesmo processo utilizado para as espécies anuais aradoras e o substrato deverá ficar um pouco mais úmido, somente espremido para se retirar o excesso de água, o tempo de secagem pode variar de 30 a 180 dias, convêm observar os ovos a cada 20 dias para não termos surpresas desagradáveis.

Já nas espécies não anuais poderemos utilizar como meio de desova bruxinhas montarão um aquário com muitas plantas e filtragem, colocaremos as bruxinhas e alimentaremos os reprodutores, após estes terem se adaptados iniciarão a desova iremos inspecionar as bruxinhas pelo menos uma vez por semana e retiramos os ovos com as pontas dos dedos umedecidas, corion dos ovos são bastante resistentes, colocando estes em pequenas vasilhas(potes de margarinas ou comedores de pássaros bem lavados)com um pouco de água preparada anteriormente com um bom fungicida, conforme instruções do fabricante, o período de incubação é maior do que o requerido para os Aphyosemion, indo de 20 a 70 dias conforme a espécie e a temperatura ambiente.

Este gênero apresenta espécies de tamanhos muito variados e seus alevinos também variam conforme a espécie. No entanto são faceeis de criar e seu crescimento e rápido devendo estes serem alimentados com nauplio de artêmia e microvermes.

ASSOCIAÇÕES DE CRIADORES DE KILLIFISH.

No mundo existem várias associações que se dedicam aos Killifish, destacam-se entre elas a AKA-American Killifish Association, com aproximadamente 4.000 associados, a DKG - Deutsche Killifisch Gemeinschaft, com cerca de 2500 associados, a KFN -Killi Fish Nederland, a KCF- Killi Clube de France, BKA-British Killifish Association com cerca de 2000 associados cada. Também há clubes na Dinamarca, Portugal, Espanha, Itália e Bélgica. Estas associações possuem um intercâmbio de informações e peixes muito intensos, isto propicia que vários aquaristas tenham excelentes resultados na criação dos peixes.

Os Killiclubes no exterior são bem organizados, publicam boletins, elaboram cursos, promovendo reuniões mensais e um congresso anual, onde ocorrem concursos de peixes, palestras, e troca de peixes, com a duração de um final de semana inteiro.

Há espécies brasileiras que foram criadas no Brasil, enviadas para o exterior, e só foram vistas novamente por aqui com sua importação, pois como há poucos criadores no Brasil, se consegue um resultado satisfatório na criação de todas elas. Existem criadores no Brasil que possuem mais de 90 espécies diferentes, o que torna quase impossível o bom tratamento de todas elas .

O Brasil possui um papel de destaque no cenário internacional, pois é o país com a maior quantidade de espécies de Killifish no mundo inteiro.


AQUARISMO NO BRASIL PODE ESTAR CHEGANDO AO FIM

O texto é um tanto quanto longo; mas se você é aquarista de verdade, leia-o até o final e entenda o que está acontecendo com a aquariofilia no Brasil.

O cerco está apertando e, cada vez mais, alguns órgãos governamentais, aliados ou dando razões à pseudo-ambientalistas, nutrem a enganosa visão de que um aquarista é um degradador do meio ambiente. Olham o nosso “hobby” como se fôssemos vilões e criminosos que maltratam e praticam crueldade com os organismos aquáticos. Está cada vez mais difícil ser aquarista nesse país.

Assim, eles parecem não ter a menor noção de que, desde que o mundo é mundo, o ser humano busca a companhia dos animais; bem como esses, não raras vezes, buscam a companhia de seres humanos. É difícil um lar em nosso país que não tenha, ao menos, um cachorro, ou um gato, ou pássaros, ou plantas (em jardins, ou lagos, ou aquários), e até mesmo peixes e outros organismos aquáticos.

DA PROIBIÇÃO DO AQUARISMO

A palavra hipocrisia significa pregar uma virtude que na realidade não se tem. Assim, hipócrita é todo aquele que prega uma virtude ou atitudes louváveis; mas que na realidade é falsa e mentirosa, sendo que as reais pretensões são camufladas pela pregação virtuosa. É o indivíduo, (ou instituição comandada por indivíduos), que quer exigir das demais pessoas um comportamento que ele julga correto, mas que as verdadeiras intenções estão encobertas, ou ainda, que ele mesmo não pratica.

Na aquariofilia, (doravante usaremos esse termo no lugar de “aquarismo”, pois o entendemos mais preciso), tudo aquilo que diz respeito à sua regulamentação é eivado de hipocrisias. A começar porque pensamos estar praticando uma atividade lícita, relaxante e salutar; mas na verdade já somos tratados como criminosos há algum tempo. Os órgãos governamentais, sob o pretexto de buscar a preservação ambiental, estão lançando tantas exigências que estão tornando inviável a prática da aquariofilia; obviamente sem nos ouvir e ouvindo apenas aqueles que são contra nós.

Já estamos vivendo uma proibição velada. A última é que estão exigindo nota fiscal para comprovar “origem” do organismo. Será que pedem nota fiscal para o indivíduo que está passeando com um cachorro? Cremos que não, pois o alvo é nítido: Os aquariófilos.

É nesse campo que mais prolifera a hipocrisia, pois pregam que a aquariofilia deve ser praticada de maneira sustentável; e assim começam a lançar um monte de portarias, que instituem verdadeiros deveres e obrigações impraticáveis pelas pessoas comuns. Assim, escondem suas verdadeiras intenções de proibir, ou reduzir ao menor índice possível a prática dessa atividade milenar que tanto nos apraz.

Se tivessem mesmo a intenção de bem orientar e direcionar a aquariofilia no sentido do correto manejo dos organismos, se fossem mesmo preocupados com a qualidade de vida dos animais, teriam o critério de lançar um banco de dados para que os aquariófilos pudessem cadastrar seus animais, (de maneira livre e sem perseguições), informar quando e quantos se reproduziram, a destinação que deram aos que nasceram (se venderam, trocaram ou doaram), e mais: Montariam um “santuário” com os próprios aquariófilos e empresários do ramo onde aqueles que desistissem da pratica da aquariofilia pudessem direcionar os organismos que dispõe.

Se fossem mesmo interessados, desenvolveriam uma verdadeira prestação de serviço público; montariam uma página na internet para ensinar as técnicas de manejo e criação de ambientes propícios ao bom desenvolvimento e excelência na qualidade de vida dos organismos. Coisa que os particulares é que, ultimamente, exercem esse trabalho; principalmente através da grande prestação de serviços montada por fóruns de debates especializados.

Se fossem mesmo interessados, agiriam como verdadeiros prestadores de serviços públicos e dariam melhores orientações e facilidade para a importação, aquisição e controle de organismos para a prática da aquariofilia. Perseguiriam sim, aqueles que ficam com saquitéis em feiras e praças públicas expondo os animais a sofrimento desnecessário.

Para combater a clandestinidade, basta facilitar a regularidade, pois o custo diminui e não vale à pena ser irregular. Isso sim seria atitude de gente séria e compromissada com o meio ambiente. Mas essas proibições absolutas, confeccionadas unilateralmente sem ouvir os aquariófilos, totalitárias e descabidas, fomentam os maus tratos com os animais, pois passa a imperar a lei da oferta e da procura, onde más pessoas passam a não medir conseqüências para obter lucro. Eis o fruto colhido por aqueles que têm o dever funcional de zelar pelo meio ambiente.

Mas não: Preferem ficar exigindo nota fiscal. Ora senhores, nota fiscal é documento fiscal e não comprobatório de origem. Aliás, como é comum mantermos nossos aquários com ótimas qualidades ambientais, é natural que nossos animais e plantas se reproduzam. Como fazer o controle através de notas fiscais dos animais que se reproduziram em nossos aquários? Ou ainda, é comum outros seres virem agregados em organismos aquáticos que adquirimos; como se justificará por nota fiscal um ser agregado? Deveríamos matá-lo? Fica nítida a esdrúxula imposição de dificuldades e descaso com a vida dos organismos; um pedaço de papel se torna mais importante que a vida de um ser.

Assim, quando lançam essa marafona de normas com proibições ou regulamentações ridículas, (Resoluções, Instruções Normativas e Portarias), algumas conflitantes com leis federais e com a Constituição, estão na verdade impondo uma proibição disfarçada à prática da aquariofilia. Na realidade é isso: Você está se tornando um criminoso, um ser abominável e desprezível; mas ainda não sabe.

Logo estarão invadindo nossas casas e fazendo “revistas” para ver os animais que temos; certamente acharão algum que dirão que é proibido, e aí você será autuado e preso. Não pensem que isso é um exagero ou mero alarmismo barato, pois já temos caso de aquariófilo que teve suas correspondências violadas dentro das agências dos correios, por agentes administrativos de autarquia federal, por suspeitarem que ali houvesse organismos aquáticos; violação do sigilo da correspondência sem mandado judicial, na mão grande mesmo. É mole!!!

DA USURPAÇÃO DOS DIREITOS DO CIDADÃO

Muitas vezes nós não percebemos, mas o Poder Público vai tirando um “direitozinho” daqui, outro acolá, outro ali, e quando nos damos por conta, estamos amarrados num mato sem cachorro! É assim que os grandes tiranos agiam: à sorrelfa, aos poucos, sem causar grandes impactos e geralmente justificando suas proibições com algum motivo louvável. Destarte, pegavam um “para Cristo” e enforcavam em praça pública no intuito de servir de exemplo aos demais.

Vocês acham que na aquariofilia a coisa está longe disso? Viram as reportagens na televisão em que prenderam uma pessoa no Espírito Santo com uma tonelada de rochas vivas? Viram aquela outra em que perseguiram e indiciaram alguns empresários da aquariofilia por dizerem que estavam com animais proibidos? Quem vocês acham que foi queimado em praça pública? Só os empresários e o cara que estava com as rochas? Não senhores, estão redondamente enganados! Jogaram todos nós, aquariófilos, na fogueira. Isso é um golpe para colocar a opinião pública contra nós, pois não somos maioria e é fácil fazer joguete de interesses escusos com os que estão em menor número.

Nesse momento é capaz de surgir alguém dizendo: “Nossa, vocês estão dando importância demais para um hobby; a vida tem tantas outras coisas muito mais importantes para resolver”. É verdade, a vida tem coisas muito mais importantes para resolver; como a saúde, a educação, o trabalho, dentre outros. Mas isso não justifica castrarem o nosso direito ao lazer; aliás, direito esse estampado no artigo 6º da Constituição da República.

O indivíduo que se resigna quando lhe restringem um direito passa a não ser merecedor do direito que tinha. A esses, deixamos uma frase de Kant: “Quem se transforma em um verme não pode queixar-se de ser pisado pelos pés dos outros”.

Diz a Constituição da República, em seu artigo 5º, inciso II, que “ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei”; é o famoso Princípio da Reserva Legal. Há discussões acadêmicas e doutrinárias questionando se a lei ali mencionada pode ser estendida a qualquer tipo de norma; felizmente grande parte dos juristas entende que lei é aquilo que passa por um processo legislativo (em nível federal: Câmara dos Deputados, Senado Federal e Sanção Presidencial).

Quando os órgãos administrativos lançam essas normas restritivas de direitos, (em flagrante violação à Constituição da República), estão nos impondo obrigações sob o pretensioso argumento do Princípio da Precaução; usado hoje em dia de forma mais ampla que os demais princípios constitucionais. Ou nos insurgimos contra essa barbárie, ou seremos as próximas vítimas. Todos os princípios constitucionais devem ser analisados de forma harmônica e tirar o nosso direito de ter o nosso aquário, é atentar contra o nosso Princípio da Dignidade da Pessoa Humana.

Logo abaixo da Constituição da República, vem o Código Civil Brasileiro, (lei nº 10.406 de 10/01/2002), o qual institui, harmonicamente com a Constituição, o sagrado Direito de Propriedade. Qualquer pessoa afeta ao mundo jurídico sabe que a propriedade de um bem móvel se adquire com a tradição (entrega da coisa); logo se você está na posse de um bem móvel, até prova em contrário, o bem móvel é seu. Os animais são bens móveis, (denominados “semoventes”), portanto, não pode o Poder Público, através de atos administrativos, restringir direitos atribuídos por lei federal.

É bem verdade que o Direito Ambiental relativiza a propriedade; mas isso não quer dizer que possa, através de atos administrativos unilaterais, revogar a propriedade das pessoas ao seu bel prazer.

É incrível, mas o que os órgãos governamentais têm feito hoje em dia, é simplesmente decidir por nós o que podemos e o que não podemos ter e fica por isso mesmo; pode parecer um desplante, mas nós que somos os maiores interessados em participar da matéria, nunca somos ouvidos.

MEIAS VERDADES SUSTENTADAS CONTRA A AQUARIOFILIA

Como somos um elo fraco da cadeia, geralmente sofremos acusações de sermos exploradores, degradadores, indivíduos perniciosos ao meio ambiente. E é fácil acusar aquariofilistas, pois geralmente eles não se defendem! Para não alongar por demais as citações, escolhemos um dos casos em que fica fácil desmascarar uma das inverdades ditas contra a aquariofilia.

É interessante vermos divulgações de que a aquariofilia é responsável, por predação extrativista, de ameaçar as “pedras vivas”; como a contida na matéria inserida “link”: www.ibama.gov.br/parna_abrolhos/download.php?id_download=44. É lastimável que a autora, baseada em suas conclusões pessoais, tenha lançado uma advertência pública aos aquariofilistas. Qual o real impacto causado pela aquariofilia nas rochas vivas? Vejamos: As algas calcárias têm aplicação nos seguintes empreendimentos: Agricultura, potabilização de água, indústria de cosméticos, dietética, indústria cirúrgica, nutrição animal, tratamento de água e desnitrificação de águas; fora as formas indiretas que atingem essas algas, como a exploração de petróleo. E é a aquariofilia a responsável pela degradação do meio ambiente marinho? Será a aquariofilia a causadora da extinção das algas calcárias?

O sistema de coleta das algas calcárias para a aquariofilia é manual, artesanal, até mesmo amadorística. Já para o uso empresarial vocês sabem qual é o sistema? É conhecido como mineração. Isso mesmo, senhores, mineração, geralmente feita através de dragagem. Querer comparar os empreendimentos para a aquariofilia com o sistema de mineração é como comparar o balido de uma ovelha com uma explosão atômica. Sem contar que a aquariofilia já está mesclando o sistema de rochas artificiais com as naturais; ou seja, já estamos próximos do meio balido de ovelha. Quem tiver alguma dúvida sobre a exploração por mineração, acesse o “link” da Revista Brasileira de Geofísica: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-261X2000000..., e leia o artigo do geólogo Gilberto Dias.

A CRIAÇÃO DA ABRAQUA E SUAS FINALIDADES

Em julho de 2007 tivemos uma grande crise na aquariofilia. Não se conseguia a importação de vários organismos aquáticos e a coleta dos nacionais estava praticamente inviabilizada. Chegaram a cogitar em fóruns de discussões sobre a possibilidade do fim do hobby.

Muitos vieram com aquele “papinho” que sempre surge de que “isso era mais um golpe de ‘marketing’ dos empresários do ramo da aquariofilia para subir os preços e ter altos lucros”. Mas a coisa era séria mesmo. Acostumados com esses jargões, esqueceram de olhar o mundo ao redor e hoje estamos na “alça de mira”.

Alguns aquariofilistas, então no dia 15 de setembro de 2007, resolveram montar a Associação Brasileira de Aquariofilia – ABRAQUA – com a finalidade de defender os interesses dos aquariofilistas e buscar um desenvolvimento sustentável para a sua prática.

Chegamos a participar de uma audiência pública em Tamandaré-PE, com representantes dos órgãos governamentais e conseguimos alguns bons frutos com esse trabalho conjunto. Mas, não foi o bastante.

Enfrentando várias dificuldades conseguimos manter a associação em franco funcionamento e com regularidade das reuniões; contudo, somos limitados pelo número de associados. Muito disso por fatores que fogem à nossa vontade, pois em número reduzido de pessoas acabamos não tendo tempo disponível para levar adiante os ideais da associação. Poucos se interessaram em ingressar e participar efetivamente da associação, logo, também nos falta recursos humanos.

Contamos, hoje, com o número reduzido de associados; o que logicamente não é suficiente para demonstrarmos nossa verdadeira força junto aos órgãos públicos; e até mesmo discutirmos parcerias e projetos para a aquariofilia brasileira.

Assim, diante dos problemas narrados, fica evidente que precisamos crescer para defendermos nossos direitos; bem como auxiliarmos as autoridades no desenvolvimento da aquariofilia. É crescer para defender os interesses de seus associados; é procurar dar as corretas orientações aos associados; é ter um departamento jurídico onde o associado possa consultar seus direitos e saber como exercê-los, assim como ser orientado sobre suas obrigações; é buscar parcerias com o Poder Público para bem orientar seus associados; é exigir do Poder Público o cumprimento das leis (e não de normas tacanhas) dando a correta orientação jurídica aos associados; é representar contra os maus funcionários do Poder Público que agem com arbitrariedades e truculências, tanto na esfera administrativa, quanto na civil, quanto na criminal; por outro lado, buscar os bons conhecimentos dos bons funcionários para melhorar a prática da aquariofilia.

Não é só dedicar parte do seu tempo ao aquário, mas também ao DIREITO de ter o seu aquário. Quem não defende o seu direito, corre um sério risco de perdê-lo.

Portanto, fica aqui o apelo: Ajudem-nos. Mas ajudar como? Associando-se, participando dos trabalhos da associação, lançando idéias e conhecimentos. Estamos até mesmo com dificuldade de trabalhar na página da internet que já está paga e em franco funcionamento ( www.abraqua.org.br ). Parece que agora é que conseguimos um voluntário para trabalhar no gerenciamento dessa página da internet e, em alguns dias, esperamos que funcione de uma maneira mais ágil.

A associação foi criada para você, aquariófilo, portanto, ajude-a a ajudá-lo. Associe-se.

OS CULPADOS POR NOSSA SITUAÇÃO PREOCUPANTE

Seria muito fácil, senão leviano, dizer que os culpados são o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), a Secretaria Especial de Aqüicultura e Pesca (SEAP), o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), dentre outros.

Mas essa não é a verdade. A verdade é que os culpados somos nós mesmos, pois queremos desfrutar dos prazeres da aquariofilia, mas não nos preocupamos em assumir as responsabilidades de defender nossos interesses. Sempre jogamos isso nas mãos dos outros. Queremos chegar nas lojas e encontrar tudo ali bonitinho e do jeitinho que achamos que deve estar; e mais: sempre com um precinho pequeno. É possível chegar a isso, mas precisamos aprender a fazer nosso dever de casa; caso contrário, tudo ficará mais difícil e mais caro.

Ao acessarmos o “link” do IBAMA: http://www.ibama.gov.br/recursos-pesqueiros/perguntas-frequentes/#aquari..., percebemos que eles até tem boa vontade em tentar regulamentar uma ou outra situação. O que está mesmo faltando é nós fazermos a nossa parte. Assim, faça a sua parte e associe-se.

Fazemos questão de encerrar esse apelo com o ensinamento de um poeta russo "suicidado" após a revolução de Lenin; seu nome era Maiakovski e escreveu, (ainda no início do século XX), o seguinte poema:

Na primeira noite, eles se aproximam
e colhem uma flor de nosso jardim.
E não dizemos nada.

Na segunda noite, já não se escondem,
pisam as flores, matam nosso cão.
E não dizemos nada.

Até que um dia, o mais frágil deles, entra
sozinho em nossa casa, rouba-nos a lua,
e, conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.

E porque não dissemos nada,
já não podemos dizer nada.

ABRAQUA – Associação Brasileira de Aquariofilia

Autor: 
Ricardo Bitencourt

Conteúdo sindicalizado